Se você tem doença renal crônica associada ao diabetes tipo 2, há uma boa notícia: um novo medicamento está revolucionando o tratamento e a proteção dos rins. Seu nome é finerenona (Firialta®), e ele representa uma abordagem inovadora no combate à progressão da doença renal.
Diferente de outros medicamentos que você já conhece, a finerenona atua de forma única, bloqueando processos inflamatórios e fibróticos que destroem lentamente o tecido renal. Vamos entender, de forma clara e acessível, como esse medicamento funciona e por que ele é considerado um marco no tratamento da doença renal diabética.
O que é a Finerenona?
A finerenona é um antagonista não esteroidal do receptor mineralocorticoide (ARM).
Mas o que isso significa na prática?
Para entender a finerenona, precisamos conhecer o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), um conjunto de hormônios que regula a pressão arterial e o equilíbrio de sal e água no corpo.
Um dos principais hormônios desse sistema é a aldosterona, que age através dos receptores mineralocorticoides presentes em diversos órgãos, incluindo rins, coração e vasos sanguíneos.
Em condições normais, a aldosterona tem funções importantes:
- Regula a retenção de sódio e água
- Mantém o equilíbrio de potássio
- Controla a pressão arterial
O problema é que em pessoas com diabetes e doença renal crônica, há uma hiperativação do SRAA e excesso de aldosterona. Isso resulta em:
- Inflamação crônica dos rins
- Fibrose renal (cicatrização progressiva do tecido renal)
- Perda progressiva de função renal
- Aumento da albuminúria (proteína na urina)
- Maior risco cardiovascular
Onde e como a Finerenona atua nos rins?
A finerenona é um bloqueador seletivo dos receptores mineralocorticoides, especialmente projetada para atuar nos rins, coração e vasos sanguíneos, com menor ação nos rins em relação aos antagonistas mais antigos (como espironolactona).
Mecanismo de ação nos rins:
1. Bloqueio da inflamação renal
A hiperativação dos receptores mineralocorticoides nos rins causa inflamação crônica, que agride progressivamente o tecido renal. A finerenona bloqueia esses receptores, interrompendo o ciclo inflamatório e protegendo as células renais.
2. Redução da fibrose renal
A fibrose é o processo de cicatrização anormal dos rins — o tecido saudável é substituído por tecido cicatricial rígido, que não funciona. É como se os rins “enduecessem” e perdessem sua capacidade de filtrar o sangue. A finerenona reduz a formação de fibrose, preservando a estrutura funcional dos rins.
3. Diminuição da albuminúria
A presença de albumina (proteína) na urina é um marcador de lesão dos filtros renais. Quanto mais proteína você perde, mais danificados estão seus rins. A finerenona reduz significativamente a albuminúria, indicando melhora na integridade dos glomérulos (unidades filtrantes dos rins).
4. Proteção do endotélio vascular renal
Os rins possuem uma vasta rede de vasos sanguíneos minúsculos. A finerenona protege o endotélio (camada interna dos vasos), melhorando a circulação renal e reduzindo o estresse oxidativo.
5. Equilíbrio de eletrólitos sem risco aumentado de hipercalemia
Diferente dos bloqueadores mais antigos (espironolactona, eplerenona), a finerenona tem seletividade diferente, o que resulta em menor risco de hipercalemia (potássio elevado no sangue), um efeito colateral limitante dos antagonistas tradicionais.
Benefícios a curto, médio e longo prazo
- Curto Prazo (primeiras semanas a meses)
- Redução rápida da albuminúria: Um dos primeiros sinais de eficácia é a diminuição da perda de proteína pela urina, observada já nas primeiras semanas de tratamento.
- Controle da pressão arterial: Redução modesta, mas consistente, da pressão arterial sistólica.
- Tolerabilidade: Boa aceitação, com baixa incidência de efeitos colaterais significativos.
- Melhora dos biomarcadores inflamatórios: Redução de marcadores de inflamação e fibrose no sangue.
- Médio Prazo (6 meses a 2 anos)
- Estabilização da função renal: Desaceleração da perda de função medida pela taxa de filtração glomerular (TFG).
- Redução sustentada da albuminúria: Manutenção da diminuição de proteína na urina ao longo do tempo.
- Proteção cardiovascular: Redução de eventos cardiovasculares como infarto, AVC e hospitalizações por insuficiência cardíaca.
- Melhora da qualidade de vida: Menos sintomas relacionados à progressão da doença renal.
- Longo Prazo (anos de tratamento)
Os benefícios a longo prazo da finerenona foram comprovados por dois grandes estudos científicos que mudaram o paradigma do tratamento da doença renal diabética:
Evidências Científicas: Estudos FIDELIO-DKD e FIGARO-DKD
Estudo FIDELIO-DKD (2020)
Foco: Pacientes com doença renal crônica e diabetes tipo 2, com albuminúria elevada.
Resultados principais:
• 5.734 pacientes acompanhados por aproximadamente 2,6 anos
• 18% de redução no desfecho renal primário composto (piora sustentada da TFG ≥40%, falência renal [diálise/transplante] ou morte por causa renal)
• 31% de redução na redução sustentada da TFG ≥40%
• 14% de redução no risco de eventos cardiovasculares (morte cardiovascular, infarto, AVC, hospitalização por insuficiência cardíaca)
• Redução significativa e sustentada da albuminúria
Publicação: New England Journal of Medicine, 2020
Referência: Bakris GL, et al. Effect of Finerenone on Chronic Kidney Disease Outcomes in Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2020;383(23):2219-2229.
Estudo FIGARO-DKD (2021)
Foco: Pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica em estágio mais inicial ou com doença cardiovascular estabelecida.
Resultados principais:
• 7.437 pacientes acompanhados por aproximadamente 3,4 anos
• 13% de redução no desfecho cardiovascular primário (morte cardiovascular, infarto, AVC, hospitalização por insuficiência cardíaca)
• Benefício renal significativo, especialmente na redução da progressão da albuminúria
• Confirmação do perfil de segurança da finerenona
Publicação: New England Journal of Medicine, 2021
Referência: Pitt B, et al. Cardiovascular Events with Finerenone in Kidney Disease and Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2021;385(24):2252-2263.
Análise Combinada FIDELITY (2022)
Quando os dados dos dois estudos foram combinados (mais de 13.000 pacientes), os resultados foram ainda mais impressionantes:
23% de redução no risco de progressão para falência renal
14% de redução em eventos cardiovasculares maiores
Benefício consistente em diferentes estágios de função renal e níveis de albuminúria
Perfil de segurança favorável, com risco de hipercalemia manejável
Publicação: European Heart Journal, 2022
Referência: Agarwal R, et al. Cardiovascular and kidney outcomes with finerenone in patients with type 2 diabetes and chronic kidney disease: the FIDELITY pooled analysis. Eur Heart J. 2022;43(6):474-484.
Em Resumo: Benefícios Comprovados a Longo Prazo
Redução de 18-23% na progressão da doença renal (menor risco de diálise/transplante)
Redução de 13-14% em eventos cardiovasculares (menos infartos, AVCs, hospitalizações)
Redução sustentada e significativa da albuminúria
Preservação da função renal por mais tempo
Proteção dupla: renal E cardiovascular
Para Quem a Finerenona É Indicada?
A finerenona é indicada para:
Pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica (TFG entre 25-90 ml/min/1,73m²)
Presença de albuminúria (proteína na urina)
Pacientes já em uso de IECA ou BRA (medicamentos que bloqueiam o SRAA)
Indivíduos que necessitam de proteção renal e cardiovascular adicional
Importante: A finerenona é um tratamento complementar, não substitui os IECA/BRA. Ela adiciona uma camada extra de proteção ao bloquear um ponto diferente do sistema SRAA. Portanto, o seu IECA (captopril, enalapril, ramipril, lisinopril, etc) ou o seu BRA (losartana, valsartana, olmesartana, telmisartana, etc) NÃO DEVEM SER SUSPENSOS para início da finerinona! O tratamento com a finerinina é COMPLEMENTAR!
Efeitos Colaterais e Precauções
Como todo medicamento, a finerenona pode causar efeitos colaterais:
Efeito colateral mais importante:
- Hipercalemia (potássio elevado no sangue)
- Ocorre em aproximadamente 10-18% dos pacientes (dependendo da função renal basal)
- Menor risco comparado aos antagonistas tradicionais (espironolactona)
- Requer monitoramento regular dos níveis de potássio
- Pode necessitar ajuste de dose ou suspensão temporária
Estratégias para minimizar: - Monitorar potássio regularmente (especialmente no primeiro mês)
- Ajustar ou evitar alimentos muito ricos em potássio se necessário
- Revisar outros medicamentos que aumentam potássio
Outros efeitos possíveis:
• Hipotensão (pressão baixa) — raro
- Tontura — pouco comum
• Náuseas leves — raras
Contraindicações:
• Hipercalemia prévia não controlada
• Função renal muito comprometida (TFG < 25 ml/min)
• Uso concomitante de inibidores potentes do CYP3A4 (certos antifúngicos, antibióticos)
• Insuficiência adrenal (doença de Addison)
• Gravidez e amamentação
O acompanhamento médico regular é fundamental para monitoramento de potássio e ajuste de doses quando necessário.
Conclusão: Proteção Renal e Cardiovascular em Um Único Medicamento
A finerenona representa um dos avanços mais significativos no tratamento da doença renal diabética nas últimas décadas. Ela atua em um mecanismo diferente e complementar aos tratamentos tradicionais, oferecendo proteção dupla, renal E cardiovascular.
Os estudos FIDELIO-DKD e FIGARO-DKD demonstraram de forma inequívoca que a finerenona:
- Retarda a progressão da doença renal
- Reduz o risco de diálise e transplante
- Diminui eventos cardiovasculares
- Melhora biomarcadores de lesão renal
Se você tem diabetes tipo 2 com doença renal crônica, especialmente com presença de proteína na urina, converse com seu nefrologista ou endocrinologista sobre a possibilidade de adicionar finerenona ao seu tratamento. Cada dia de proteção renal conta para preservar sua qualidade de vida e sua independência.
Sua saúde renal merece o que há de mais moderno e eficaz. Agende sua consulta e descubra o melhor plano de tratamento personalizado para você.
Dra. Marília Vilela
Médica Nefrologista
CRM-MG 54639 | RQE 42027
Referências Científicas:
1. Bakris GL, Agarwal R, Anker SD, et al. Effect of Finerenone on Chronic Kidney Disease Outcomes in Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2020;383(23):2219-2229. DOI: 10.1056/NEJMoa2025845
2. Pitt B, Filippatos G, Agarwal R, et al. Cardiovascular Events with Finerenone in Kidney Disease and Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2021;385(24):2252-2263. DOI: 10.1056/NEJMoa2110956
3. Agarwal R, Filippatos G, Pitt B, et al. Cardiovascular and kidney outcomes with finerenone in patients with type 2 diabetes and chronic kidney disease: the FIDELITY pooled analysis. Eur Heart J. 2022;43(6):474-484. DOI: 10.1093/eurheartj/ehab777
4. Ruilope LM, Agarwal R, Anker SD, et al. Blood Pressure and Cardiorenal Outcomes With Finerenone in Chronic Kidney Disease in Type 2 Diabetes. Hypertension. 2022. PMC9652893
5. National Kidney Foundation. Finerenone:
6. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Int. 2024.