Se você tem doença renal crônica ou acompanha alguém nessa situação, provavelmente já ouviu falar de medicamentos como dapagliflozina (Forxiga®) e empagliflozina (Jardiance®). Esses remédios fazem parte de uma classe chamada inibidores de SGLT2, inicialmente desenvolvida para tratar diabetes tipo 2. Mas, nos últimos anos, a ciência descobriu algo extraordinário: eles protegem os rins de forma poderosa, mesmo em quem não tem diabetes.
Como recebo muitas dúvidas sobre esses medicamentos, fiz esse texto para você, que quer entender mais sobre o seu tratamento, explicando sobre como esses medicamentos funcionam e por que eles representam uma verdadeira revolução no tratamento da doença renal.
Onde e como os inibidores de SGLT2 atuam?
Para entender a ação desses medicamentos, vamos fazer uma viagem rápida pelo funcionamento dos rins.
O que são os SGLT2?
SGLT2 é a sigla para “transportadores de sódio-glicose tipo 2”. Eles são proteínas localizadas nos túbulos renais proximais, uma parte específica dos rins responsável por tratar o líquido filtrado pelos “filtros dos rins” para produzir a urina o sangue e reabsorver substâncias importantes de volta para o corpo.
Em condições normais, os rins filtram glicose (açúcar) e sódio do sangue, mas depois os SGLT2 reabsorvem grande parte dessa glicose e sódio, devolvendo-os para a corrente sanguínea. É como se os rins fizessem uma “triagem”: filtram tudo primeiro e depois salvam o que é importante.
O que os inibidores de SGLT2 fazem?
Medicamentos como dapagliflozina e empagliflozina bloqueiam esses transportadores SGLT2. Resultado? Menos glicose e menos sódio são reabsorvidos e ambos acabam sendo eliminados pela urina.
À primeira vista, isso parece simples: menos açúcar no sangue, melhor controle do diabetes. Mas o que a ciência descobriu é que o benefício vai muito além do controle glicêmico. Esse bloqueio desencadeia uma série de efeitos protetores sobre os rins e também sobre o coração.
Como esses medicamentos protegem os rins?
Os inibidores de SGLT2 atuam através de múltiplos mecanismos que protegem os rins de diferentes formas:
1. Redução da pressão intraglomerular (hiperfiltração): Quando os rins estão doentes, especialmente em quem tem diabetes, hipertensão ou obesidade, eles trabalham sob pressão excessiva dentro dos glomérulos (as unidades filtrantes dos rins). É como forçar uma peneira delicada com muita pressão: com o tempo, ela se danifica. Os inibidores de SGLT2 reduzem essa pressão interna no glomérulo, permitindo que os rins trabalhem de forma mais equilibrada. Isso acontece através de um mecanismo chamado feedback tubuloglomerular: ao bloquear a reabsorção de sódio, os rins “entendem”que há sódio suficiente chegando e ajustam a filtração, diminuindo a sobrecarga.
2. Redução da inflamação e fibrose renal: A doença renal crônica causa inflamação e fibrose (cicatrização) progressiva do tecido renal. Como sempre comento, a formação de cicatriz é definitiva e irreversível. Os inibidores de SGLT2 ajudam a reduzir esses processos inflamatórios que levam à formação de fibrose, protegendo a estrutura dos rins.
3. Melhora do controle metabólico: Ao eliminar glicose pela urina, esses medicamentos melhoram o controle glicêmico (em diabéticos), reduzem o peso corporal e melhoram a pressão arterial, fatores que, em conjunto, diminuem a agressão aos rins.
4. Proteção cardiovascular: Coração e rins trabalham juntos. Quando o coração melhora (menos insuficiência cardíaca, menor sobrecarga), os rins também se beneficiam. Os inibidores de SGLT2 têm efeito protetor cardiovascular comprovado, reduzindo hospitalizações por insuficiência cardíaca.
Benefícios a curto, médio e longo prazo
- Curto Prazo (primeiras semanas a meses):
- Redução da albuminúria (proteína na urina): Um dos primeiros sinais de melhora é a diminuição da perda de proteína pela urina, indicando menos dano aos filtros renais.
- Controle da pressão arterial: Leve redução da pressão, especialmente em quem tem hipertensão associada.
- Perda de peso modesta: Entre 2-3 kg em média, relacionada à perda de glicose pela urina e redução de retenção de líquidos. Em outras palavras: ajuda a desinchar.
- Melhora do controle glicêmico (em diabéticos): Redução da hemoglobina glicada (HbA1c) entre 0,5-1%.
- Médio Prazo (6 meses a 2 anos):
- Estabilização da função renal: Desaceleração da perda de função dos rins, medida pela taxa de filtração glomerular (TFG).
- Redução de eventos cardiovasculares: Menos hospitalizações por insuficiência cardíaca.
- Melhora da qualidade de vida: Menos sintomas de fadiga, inchaço e falta de ar relacionados à retenção de líquidos.
- Longo Prazo (anos de tratamento):
Os benefícios a longo prazo são os mais impressionantes e foram comprovados por grandes estudos científicos:
Estudo DAPA-CKD (Dapagliflozina, 2020):
– 43% de redução no risco de progressão da doença renal, necessidade de diálise ou morte por causa renal
– Benefício observado tanto em diabéticos quanto em não-diabéticos
Publicado no New England Journal of Medicine
Estudo EMPA-KIDNEY (Empagliflozina, 2023):
– 28% de redução no risco de progressão da doença renal ou morte cardiovascular
– Benefício consistente em pacientes com diferentes níveis de função renal (inclusive com TFG abaixo de 30 ml/min)
– Confirmou segurança e eficácia em população ampla de pacientes com doença renal crônica
Em resumo, o uso prolongado de inibidores de SGLT2:
✓ Atrasa a progressão da doença renal (retarda a chegada à diálise)
✓ Reduz o risco de morte cardiovascular
✓ Diminui hospitalizações por insuficiência cardíaca
✓ Preserva a função renal por mais tempo
Para quem esses medicamentos são indicados?
Os inibidores de SGLT2 são indicados para:
✓ Pacientes com doença renal crônica e perda de proteína na urina (mesmo sem diabetes)
✓ Pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal
✓ Pessoas com albuminúria persistente (proteína na urina), mesmo com função renal “normal”
✓ Pacientes com insuficiência cardíaca associada à doença renal
✓ Indivíduos com fatores de risco para progressão da doença renal
Importante: A indicação deve ser sempre individualizada pelo médico nefrologista, cardiologista ou endocrinologista, considerando função renal atual, outras doenças e medicações em uso.
Efeitos colaterais e precauções
Como todo medicamento, os inibidores de SGLT2 podem causar efeitos colaterais, embora sejam geralmente bem tolerados:
Efeitos mais comuns:
- Aumento do risco de infecções urinárias e genitais por fungos (principalmente cândida): Pelo aumento de glicose na urina (especialmente em mulheres). O fungo se beneficia do aumento de glicose na região e tende a proliferar.
- Aumento da frequência urinária: você vai começar a ir mais vezes ao banheiro, mas isso acontece especialmente nas primeiras semanas
- Hipotensão postural: Tontura ao levantar-se rapidamente (raro). Se isso acontecer, fale co o seu médico!
Efeitos raros, mas importantes:
- Cetoacidose euglicêmica: Condição rara, mas grave (mais comum em diabéticos tipo 1 ou em situações de jejum prolongado, cirurgia ou doença aguda)
- Queda inicial da função renal: Pode haver uma pequena queda temporária da TFG no início, que depois estabiliza
Contraindicações:
- Iniciar o uso quando a função renal já está muito comprometida (a eficácia reduz em estágios muito avançados)
- Histórico de cetoacidose frequente
- Gravidez e amamentação
Nunca inicie ou interrompa o uso sem orientação médica! O acompanhamento especializado garante ajuste de doses e monitoramento adequado.
Conclusão: Uma Nova Era no Tratamento da Doença Renal
Os inibidores de SGLT2 representam um dos maiores avanços da nefrologia nas últimas décadas. Pela primeira vez, temos medicamentos que efetivamente desaceleram a progressão da doença renal crônica, atuando na raiz do problema e não apenas nos sintomas.
Seja você diabético ou não, se tem doença renal crônica, converse com seu nefrologista sobre a possibilidade de incluir esses medicamentos no seu tratamento. Cada dia de proteção renal conta para preservar sua qualidade de vida e adiar, ou até evitar, a necessidade de diálise.
A saúde dos seus rins começa com informação e acompanhamento especializado. Agende sua consulta e descubra o melhor tratamento para o seu caso.
💡 Informação Importante: Glicose na Urina é Esperado!
Se você está usando dapagliflozina ou empagliflozina, há algo importante que você precisa saber: seus exames de urina rotina vão mostrar presença de glicose a partir do início do tratamento.
Não se preocupe! Essa não é uma indicação de descontrole do diabetes ou de piora da função renal. Na verdade, é exatamente o oposto: a presença de glicose na urina é um sinal de que o medicamento está funcionando corretamente.
Lembre-se: o mecanismo de ação dos inibidores de SGLT2 é justamente eliminar o excesso de glicose pela urina. Portanto, encontrar glicose no exame de urina é esperado e desejável durante o tratamento.
Dica prática: Sempre informe ao laboratório e ao médico solicitante que você usa inibidor de SGLT2, para evitar interpretações equivocadas do resultado.
Dra. Marília Vilela
Médica Nefrologista
CRM-MG 54639 | RQE 42027
Referências Científicas:
1. Heerspink HJL, et al. Dapagliflozin in Patients with Chronic Kidney Disease. N Engl J Med. 2020;383:1436-1446. DOI: 10.1056/NEJMoa2024816
2. The EMPA-KIDNEY Collaborative Group. Empagliflozin in Patients with Chronic Kidney Disease. N Engl J Med. 2023;388:117-127. DOI: 10.1056/NEJMoa2204233
3. Neuen BL, et al. Prescribing SGLT2 Inhibitors in Patients With CKD: Expanding Indications and Practical Considerations. Kidney Int Rep. 2022;7(7):1463-1476. PMC9263228
4. National Kidney Foundation. SGLT2 Inhibitors: Uses, Types, and Side Effects. Disponível em: https://www.kidney.org/kidney-topics/sglt2-inhibitors
5. Nuffield Department of Population Health, University of Oxford. Study shows kidney and heart benefits of SGLT2 inhibitors extend to all patients with chronic kidney disease. 2025.