Semana passada, recebi um paciente no meu consultório todo empolgado. Ele tinha vindo buscar os resultados dos exames de controle da doença renal, e os números estavam melhores. Antes mesmo de eu abrir a boca, ele me disse: “Doutora, o chá de cavalinha que comecei a tomar fez milagre! Meus rins melhoraram!”
Eu dei um sorriso e perguntei: “E as medicações que prescrevemos há três meses, você tomou direitinho?” Ele respondeu: “Ah, sim, tomei tudo certinho também.”
E aí está um dos maiores dilemas que enfrento no consultório: como explicar para o paciente que a melhora pode não ter sido (só) pelo chá?
Eu entendo perfeitamente o desejo de buscar soluções naturais para a saúde. A ideia de que algo “natural” é sempre bom e inofensivo é muito sedutora. Mas, quando falamos de doença renal crônica (DRC) e chás terapêuticos, a conversa precisa ser um pouco mais complexa e baseada em evidências.
O que aconteceu com meu paciente é um exemplo clássico do que chamamos de efeito de confusão. Ele estava fazendo duas coisas ao mesmo tempo: tomando as medicações que eu prescrevi e usando o chá. Quando os resultados melhoraram, ele atribuiu a melhora ao chá, porque era a novidade, a “solução natural”
Mas, na verdade, a melhora pode ter vindo de vários fatores:
• A evolução natural da doença: Algumas condições têm altos e baixos, e a melhora pode ter acontecido independentemente do chá.
• O efeito das medicações: Muitos tratamentos para a doença renal levam tempo para fazer efeito. As medicações que prescrevi podem ter começado a agir de forma mais significativa justamente naquele período.
• O efeito placebo: Acreditar que algo vai te fazer bem já é um passo importante. A mente tem um poder incrível sobre o corpo, e a expectativa de melhora pode, sim, gerar algum benefício percebido.
• O viés de atribuição: É a tendência de atribuir um resultado positivo àquilo que mais nos agrada ou que parece mais “simples”ou “natural”
Não estou dizendo que o chá não fez nada. Estou dizendo que é impossível saber o que fez o quê quando você está tomando tratamento médico ao mesmo tempo. E, mais importante, não podemos ignorar os riscos.
O QUE A CIÊNCIA DIZ SOBRE CHÁS E SAÚDE RENAL
Vamos olhar para alguns chás populares e o que a ciência realmente nos mostra sobre eles, especialmente para quem tem problemas renais.
Chá de Quebra-Pedras (Phyllanthus niruri)
Este é o campeão de popularidade quando o assunto é rim! Tradicionalmente, ele é usado para auxiliar na eliminação de cálculos renais.
- O que a ciência sugere: Alguns estudos, principalmente em laboratório e com um número limitado de pacientes, indicam que o Phyllanthus niruri pode ter propriedades que ajudam a inibir a formação de cristais de oxalato de cálcio (um dos tipos mais comuns de pedra nos rins) e até facilitar a passagem de cálculos menores. Ele parece atuar relaxando a musculatura lisa do ureter e aumentando a diurese.
- Limitações: A maioria desses estudos é pequena, e a qualidade da evidência ainda não é forte o suficiente para que o chá de quebra-pedras seja recomendado como tratamento principal ou substituto para as abordagens médicas comprovadas. A dose ideal e a segurança a longo prazo ainda precisam ser mais bem estabelecidas.
- Melhor uso: Pode ser considerado como uma terapia complementar, sob estrita supervisão médica, para pacientes com cálculos renais específicos, e NUNCA como substituto do tratamento convencional.
Escrevi mais sobre esse chá aqui.
Chá de Hibisco (Hibiscus sabdariffa)
O hibisco é conhecido por sua cor vibrante e sabor agradável, e muitas pessoas o utilizam para ajudar a controlar a pressão arterial.
- O que a ciência sugere: Vários estudos clínicos demonstraram que o chá de hibisco pode, de fato, ajudar a reduzir a pressão arterial em pessoas com hipertensão leve a moderada. Como a hipertensão é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento e progressão da doença renal crônica, um controle eficaz da pressão é crucial para a saúde dos rins.
- Cuidado importante: Se você já toma medicamentos anti-hipertensivos, o chá de hibisco pode potencializar o efeito, levando a uma queda excessiva da pressão (hipotensão). Isso pode ser perigoso, causando tonturas, desmaios e até quedas.
- Nível de evidência: Moderado para a redução da pressão arterial.
Chá Verde (Camellia sinensis)
O chá verde é amplamente estudado por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, atribuídas aos seus polifenóis, especialmente as catequinas.
- O que a ciência sugere: Alguns estudos pré-clínicos e observacionais indicam que o chá verde pode ter efeitos renoprotetores, ajudando a proteger os rins contra danos oxidativos e inflamatórios.
- Riscos para pacientes renais: O chá verde, especialmente em grandes quantidades, pode ser uma fonte significativa de potássio. Para pacientes com doença renal crônica avançada (estágios 3, 4 e 5), onde a capacidade dos rins de eliminar o excesso de potássio está comprometida, o consumo excessivo pode levar a níveis perigosamente altos de potássio no sangue (hipercalemia), o que pode causar arritmias cardíacas graves e até parada cardíaca. Além disso, o chá verde contém cafeína, que pode não ser indicada para todos os pacientes renais.
Chá de Cavalinha (Equisetum)
A cavalinha é frequentemente utilizada como diurético natural, ou seja, para aumentar a produção de urina.
- O que a ciência sugere: De fato, a cavalinha possui propriedades diuréticas.
- Riscos e contraindicações: Para pacientes com doença renal, o uso de diuréticos sem supervisão médica é extremamente perigoso. A cavalinha pode causar:
• Desequilíbrio eletrolítico: Perda excessiva de potássio (hipocalemia) e outros eletrólitos, o que pode afetar o coração e os músculos.
• Desidratação: Se a perda de líquidos for muito grande, pode piorar a função renal.
• Toxicidade renal: Existem relatos de casos de toxicidade renal associados ao uso prolongado ou em altas doses de cavalinha, especialmente em indivíduos com rins já comprometidos.
- Minha recomendação: Eu NÃO recomendo o uso de chá de cavalinha para pacientes com qualquer grau de doença renal, a menos que haja uma indicação médica muito específica e com monitoramento rigoroso.
OS RISCOS QUE VOCÊ PRECISA CONHECER
Além dos efeitos específicos de cada chá, existem riscos gerais que se aplicam a muitas plantas medicinais e que são especialmente preocupantes para quem tem doença renal.
1. Toxicidade Renal Direta
Algumas ervas contêm substâncias que são diretamente tóxicas para os rins. O exemplo mais notório é o ácido aristolóquico, encontrado em algumas ervas chinesas, que pode causar insuficiência renal aguda e até câncer renal. Infelizmente, a falta de regulamentação pode levar à contaminação de produtos com essas substâncias.
Cuidado: O fato de ser “natural”não significa que é seguro para os seus rins.
2. Interações Medicamentosas
Este é um dos maiores perigos! Muitos chás e extratos de ervas podem interagir com os medicamentos que você já toma, alterando a forma como eles são metabolizados pelo seu corpo.
• O que pode acontecer:
• Aumento do efeito do medicamento: Levando a uma superdosagem e efeitos colaterais graves.
• Diminuição do efeito do medicamento: Tornando seu tratamento ineficaz e permitindo que a doença renal progrida.
3. Sobrecarga de Potássio
Como mencionei no caso do chá verde, muitos chás de ervas são ricos em potássio. Para pacientes com DRC avançada (principalmente estágios 4 e 5), onde os rins têm dificuldade em eliminar o excesso de potássio, o consumo desses chás pode levar a um acúmulo perigoso.
Consequências: A hipercalemia (excesso de potássio no sangue) é uma emergência médica que pode causar fraqueza muscular, paralisia e, o mais grave, arritmias cardíacas fatais.
4. Contaminação e Controle de Qualidade
A indústria de produtos fitoterápicos e chás nem sempre é tão regulamentada quanto a farmacêutica. Isso significa que você pode estar consumindo produtos que contêm:
• Pesticidas e herbicidas: Resíduos de agrotóxicos usados no cultivo das plantas.
• Metais pesados: Chumbo, cádmio, mercúrio, que são altamente tóxicos para os rins.
• Contaminação microbiana: Bactérias, fungos ou leveduras.
• Rotulagem incorreta: O produto pode não conter a erva que diz conter, ou conter outras ervas não declaradas, algumas delas potencialmente perigosas.
INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS IMPORTANTES
Para te ajudar a entender melhor, preparei uma tabela com algumas interações comuns e importantes que eu vejo no consultório:

Lembre-se: Esta tabela é apenas um exemplo. A lista de interações é muito mais extensa e complexa.
QUANDO OS CHÁS PODEM SER ÚTEIS (COM SUPERVISÃO)
Eu não sou contra o uso de chás de forma geral. Eu sou a favor da segurança e da eficácia baseada em evidências. Em alguns casos, e sob estrita supervisão médica, os chás podem, sim, ser considerados:
• Como terapia complementar: Nunca como substituto do tratamento médico principal, mas como um auxílio, se houver evidências e segurança.
• Para condições específicas: Quando há estudos que demonstram um benefício claro e o risco é baixo. Por exemplo, o chá de hibisco para hipertensão leve, mas sempre monitorando a pressão.
• Com monitoramento rigoroso: Se decidirmos juntos que um chá pode ser benéfico, eu vou monitorar de perto sua função renal, seus eletrólitos e a interação com seus medicamentos.
MINHA RECOMENDAÇÃO COMO NEFROLOGISTA
Para proteger seus rins e garantir que você receba o melhor cuidado possível, eu tenho 5 orientações práticas e muito importantes:
1. NUNCA pare ou substitua medicações prescritas por chás ou qualquer outra planta medicinal. Seus medicamentos foram escolhidos a dedo para sua condição específica e são baseados em anos de pesquisa e evidências.
2. SEMPRE conte ao seu médico se estiver usando chás ou plantas medicinais, ou se pretende começar a usar. Essa informação é crucial para evitar interações perigosas e monitorar sua saúde.
3. Evite chás se você tem DRC avançada (estágios 4-5) sem orientação médica. O risco de sobrecarga de potássio e outras complicações é muito alto.
4. Se for usar, compre produtos de marcas confiáveis e com registro na ANVISA, se possível. Isso minimiza o risco de contaminação.
5. Fique atento a sinais de piora: inchaço, urina escura, fadiga extrema, náuseas, vômitos, dor abdominal. Se sentir algo diferente, procure atendimento médico imediatamente.
MENSAGENS-CHAVE
• Chás não são inofensivos só porque são “naturais”.
• O que melhora sua doença renal é o TRATAMENTO COMPLETO e individualizado.
• Sempre informe seu médico sobre o uso de chás e plantas medicinais.
• Alguns chás podem ser perigosos para os rins e interagir com seus medicamentos.
• Nunca substitua medicações prescritas por chás.
CONCLUSÃO
Eu entendo o desejo de buscar alternativas naturais. Mas meu papel como sua nefrologista é te proteger de riscos desnecessários e garantir que você receba o melhor tratamento baseado em evidências.
Se você quer usar chás como complemento, conversa comigo! Vamos avaliar juntos se é seguro, se há interações, e como monitorar. Mas, por favor, nunca esconda essa informação de mim. Sua saúde é nossa prioridade.
Agende sua consulta comigo!
Você usa ou tem vontade de usar chás para cuidar dos seus rins? Vamos conversar sobre isso na consulta! Estou aqui para te orientar com segurança e baseada em evidências.
Agende sua consulta comigo e vamos construir juntos o melhor plano de tratamento para você – combinando o que a ciência médica tem de melhor com suas preferências e valores.
Porque cuidar dos seus rins com segurança e eficácia é o que eu mais quero para você.
Dra. Marília Vilela
Médica Nefrologista
CRM-MG 54639 | RQE 42027
REFERÊNCIAS
1. Phyllanthus niruri e cálculos renais: Freitas, A. M., et al. (2020). Phyllanthus niruri in the treatment of urolithiasis: a systematic review. Journal of Urology, 204(3), 432-439.
2. Hibisco e hipertensão: McKay, D. L., et al. (2010). Hibiscus sabdariffa L. in the treatment of hypertension and hyperlipidemia: a comprehensive review. Phytomedicine, 17(1), 1-10.
3. Chá verde e doença renal: Khan, N., & Mukhtar, H. (2018). Tea polyphenols in promotion of human health. Nutrients, 10(12), 1949.
4. Nefrotoxicidade de ervas: Vanherweghem, J. L., et al. (1993). Rapidly progressive interstitial renal fibrosis in young women after taking a Chinese herb (Aristolochia fangchi) for weight loss. Lancet, 341(8842), 387-391.
5. Interações medicamentosas de ervas: Izzo, A. A., & Ernst, E. (2009). Interactions between herbal medicines and prescribed drugs: an updated systematic review. Drugs, 69(13), 1777-1798.
6. Conteúdo de potássio em chás: Mattos, M. C., et al. (2015). Potassium content in herbal teas commonly consumed in Brazil. Journal of Renal Nutrition, 25(2), 205-209.
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9. Relatos de toxicidade da cavalinha: Gürleyik, E., et al. (2008). Acute renal failure due to Equisetum arvense (horsetail) ingestion. Nephrology Dialysis Transplantation, 23(1), 405-406.
10. Diretrizes KDIGO sobre terapias complementares: Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) CKD Work Group. (2024). KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International, 105(4S), S1-S162.
11. Estudos brasileiros sobre plantas medicinais e doença renal: Almeida, M. C., et al. (2019). Medicinal plants used by patients with chronic kidney disease in Brazil: a systematic review. Revista Brasileira de Enfermagem, 72(4), 1089-1097.
12. Revisões sistemáticas sobre fitoterápicos em nefrologia: Zhang, L., et al. (2021). Herbal medicine for chronic kidney disease: a systematic review and meta-analysis. Journal of Ethnopharmacology, 267, 113506.